O conceito de “desintoxicação de dopamina” ganhou popularidade nas redes sociais, mas não encontra respaldo na ciência. A dopamina não é uma substância que codifica o prazer em si, mas atua como um sinal de aprendizado no cérebro, indicando a diferença entre o que era esperado e o que foi recebido como recompensa.

    Essa interpretação vem de experimentos clássicos conduzidos pelo neurofisiologista Wolfram Schultz na década de 1990. Em testes com macacos, ele observou que a atividade dos neurônios dopaminérgicos mudava conforme o aprendizado. No início, os neurônios disparavam quando a recompensa chegava. Com o tempo, passavam a disparar no momento do estímulo que anunciava a recompensa. Se a recompensa esperada não vinha, a atividade caía abaixo do nível normal.

    Ou seja, o pico de dopamina não marca o prazer sentido, mas um “erro de previsão de recompensa”. Quando uma ação traz mais do que o esperado, o sinal é positivo e o organismo entende que vale repetir. Quando traz menos, o sinal indica que a escolha deve ser revista. Esse mecanismo é a base do aprendizado por reforço e está presente em humanos e outros animais.

    A comparação entre aplicativos de celular e drogas também é equivocada. Substâncias como cocaína e opioides aumentam a dopamina de forma farmacológica, intensa e prolongada, sem relação com expectativas. O cérebro responde a esse excesso reduzindo o número de receptores, o que leva à tolerância em usuários crônicos.

    No caso de notificações ou curtidas, o estímulo é aleatório e depende de contexto. A resposta dopaminérgica é menor e integrada a outros neuromoduladores, não um nível isolado que possa ser “otimizado”. A ideia de um nível ideal de dopamina a ser alcançado por meio de privação de prazeres não tem fundamento científico.

    Os efeitos da dopamina são contextuais e dependem dos objetivos do organismo. A proposta de “reiniciar” o sistema com banhos frios, jejum de telas ou listas de prazeres a evitar simplifica um processo biológico complexo. A ciência mostra que o funcionamento do sistema de recompensa é dinâmico e interligado a outros mecanismos cerebrais, não um interruptor que possa ser desligado e religado à vontade.

    Fátima Watanabe

    Formada em biblioteconomia pela UFMG, Fátima Watanabe começou na sua área escrevendo artigos sobre as obras de Dante Alighieri e sua importância dentro da literatura. Hoje, Fátima passa seus dias como pesquisadora de sua área, integrando o uso de palavras-chave na pesquisa didática e ainda escreve editoriais e artigos no Revista Top Saúde.

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