Infarto pode acontecer antes dos 30 anos, e os casos vêm crescendo. Nos últimos 20 anos, as internações por infarto em pessoas abaixo de 40 anos no sistema público de saúde brasileiro aumentaram mais de 150%.
Na faixa de 25 a 29 anos, o número quase triplicou. O que diferencia o infarto jovem do infarto em idosos são as causas, a gravidade do episódio e o quanto ele surpreende tanto o paciente quanto os profissionais de saúde.
Por Que o Infarto em Jovens Está Aumentando
A explicação não é simples nem única. Cardiologistas apontam uma combinação de fatores que, juntos, estão acelerando o surgimento de doenças coronárias em pessoas que ainda deveriam estar longe desse risco.
Em jovens entre 25 e 30 anos, a quantidade de infartos mais que triplicou nos últimos anos segundo dados do sistema público de saúde brasileiro.
Uma parte desse aumento reflete mudanças no estilo de vida que foram se consolidando nas últimas décadas. Outra parte tem raízes genéticas que muitas famílias simplesmente desconhecem.
Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, mais de 30% dos jovens que infartam não apresentam os fatores de risco tradicionais.
Isso significa que o infarto precoce nem sempre tem uma causa óbvia, o que torna o diagnóstico mais difícil e o evento mais inesperado.
Causas Mais Comuns do Infarto Antes dos 30 Anos
Aterosclerose Acelerada por Hábitos
A formação de placas de gordura nas artérias começa na infância e progride silenciosamente. Quando os hábitos são ruins desde cedo, esse processo se acelera e pode obstruir uma artéria coronária décadas antes do esperado.
Os principais fatores que impulsionam esse processo em jovens são tabagismo, obesidade, sedentarismo, hipertensão não tratada, diabetes tipo 2 em estágio inicial e alimentação rica em ultraprocessados e gordura saturada.
Hipercolesterolemia Familiar
Essa é uma causa genética que ainda passa despercebida na maioria das famílias brasileiras. A hipercolesterolemia familiar é uma mutação hereditária que impede o fígado de remover o colesterol LDL do sangue adequadamente.
O resultado é um acúmulo progressivo que forma placas nas artérias desde a infância, sem sintomas visíveis. Estima-se que existam cerca de 800 mil pessoas com essa condição no Brasil, mas menos de 10% têm diagnóstico.
Portadores da forma heterozigótica apresentam LDL cronicamente acima de 300 mg/dL. Jovens com hipercolesterolemia familiar na faixa de 20 a 39 anos têm risco cerca de 100 vezes maior de sofrer um evento coronário do que a população geral.
Se um familiar de primeiro grau infartou antes dos 45 anos, investigar a possibilidade de hipercolesterolemia familiar com exame de sangue e, se necessário, teste genético é uma medida que pode salvar vidas.
Drogas Ilícitas e Substâncias Estimulantes
O uso de cocaína é responsável por até 50% dos casos de dor torácica não traumática em algumas emergências, segundo a literatura médica especializada.
A cocaína causa vasoespasmo coronário (contração brusca da artéria), aumenta a coagulação do sangue e eleva a atividade do sistema nervoso simpático, criando condições para um infarto agudo mesmo sem placas de gordura nas artérias.
O que muitas pessoas não sabem: os efeitos cardiovasculares da cocaína podem persistir por até 80 horas após o uso, não apenas no momento em que a droga é consumida.
Anabolizantes usados para fins estéticos também entram nessa lista. O uso indiscriminado causa hipertrofia do músculo cardíaco, lesões arteriais e alterações hormonais que aumentam o risco de eventos coronários.
Comportamentos de Risco Específicos
Alguns padrões de comportamento ainda pouco discutidos têm relação direta com o infarto jovem:
- Mistura de álcool com bebidas energéticas: mascara a embriaguez, sobrecarrega o coração e aumenta o risco de arritmias graves
- Exercício físico intenso e esporádico sem preparo prévio, o chamado “atleta de fim de semana”
- Uso de cigarros eletrônicos (vapes), que contêm nicotina em concentrações altas e outras substâncias inflamatórias para os vasos
- Estresse crônico com privação de sono, que libera cortisol e adrenalina de forma contínua e agride o músculo cardíaco ao longo do tempo
Causas Não Ateroscleróticas
Em alguns jovens, o infarto não tem relação com placas de gordura. As causas não ateroscleróticas incluem:
- Espasmo coronário: contração súbita de uma artéria coronária que interrompe o fluxo sanguíneo temporariamente
- Disseção espontânea de artéria coronária: ruptura da parede interna da artéria, mais comum em mulheres jovens, especialmente no período pós-parto
- Anomalias congênitas das coronárias: má formação anatômica presente desde o nascimento, que pode ser descoberta apenas no momento de um evento cardíaco
- Trombofilias: condições que aumentam a tendência do sangue a coagular, de origem genética ou adquirida
Por Que o Infarto Jovem Costuma Ser Mais Grave
Existe uma diferença fisiológica importante entre o infarto de um idoso e o de um jovem. Nos mais velhos, as artérias coronárias têm anos para desenvolver a chamada circulação colateral: pequenos vasos alternativos que se formam ao redor das obstruções e que funcionam como desvios naturais quando uma artéria é bloqueada.
O jovem não tem essa proteção. Quando uma artéria coronária fecha de repente, o músculo cardíaco fica completamente sem sangue.
O resultado é um infarto mais extenso, com maior risco de parada cardíaca e morte súbita. Isso explica a expressão “infarto fulminante em jovens” que aparece com frequência nos relatos clínicos.
Outro fator que piora o prognóstico é o tempo de atendimento. Médicos e pacientes tendem a não suspeitar de infarto em uma pessoa de 25 ou 28 anos. Esse atraso no diagnóstico tem consequências diretas no tamanho do dano ao coração.
Sintomas: O Que Observar
Os sintomas de infarto em jovens são semelhantes aos de outras faixas etárias, mas costumam aparecer de forma mais intensa e abrupta:
- Dor ou aperto no centro do peito que dura mais de 10 minutos
- Irradiação da dor para o braço esquerdo, pescoço, mandíbula ou costas
- Sudorese fria
- Náuseas e vômitos
- Falta de ar
- Sensação intensa de mal-estar ou de que algo grave está acontecendo
Um dado que assusta: cerca de metade dos infartos são silenciosos, sem dor no peito clara. Nesses casos, os sinais são fadiga incomum, falta de ar desproporcional a um esforço pequeno e tontura persistente.
Qualquer combinação desses sintomas exige acionamento imediato do SAMU (192) ou ida ao pronto-socorro. Cada minuto sem tratamento aumenta o dano ao músculo cardíaco.
O Que Fazer ao Suspeitar de Infarto
A prioridade absoluta é não perder tempo. O tratamento do infarto agudo em jovens consiste em desobstruir a artéria o mais rápido possível, geralmente por cateterismo de emergência (angioplastia).
Quando bem manejado, o prognóstico nos jovens tende a ser melhor do que em idosos, justamente pela menor quantidade de doenças associadas.
Enquanto aguarda o socorro, a pessoa não deve comer, beber nem tomar medicamentos por conta própria, exceto se já tiver sido orientada por médico a usar aspirina nessa situação.
Como Prevenir o Infarto Antes dos 30 Anos
A prevenção não começa na faixa dos 30 anos. Começa agora, independente da idade:
- Fazer check-up cardiológico se há familiar de primeiro grau que infartou antes dos 45 anos
- Medir colesterol, glicemia e pressão arterial a partir dos 20 anos, ou antes se houver histórico familiar relevante
- Não fumar nem usar cigarros eletrônicos
- Evitar anabolizantes e drogas estimulantes
- Praticar atividade física regular, não apenas nos fins de semana
- Controlar o peso e reduzir o consumo de ultraprocessados
- Dormir entre 7 e 9 horas por noite e gerenciar o estresse crônico
Para quem tem histórico familiar suspeito, o teste genético para hipercolesterolemia familiar está disponível no InCor (Hospital das Clínicas da FMUSP) e em laboratórios privados especializados.
FAQ
É possível infartar com menos de 20 anos?
Sim, embora seja raro. Casos em adolescentes e até crianças existem e costumam ter causas genéticas ou congênitas como origem, como a hipercolesterolemia familiar homozigótica, na qual os níveis de colesterol atingem valores acima de 600 mg/dL desde a infância. Nesses casos, doenças coronárias podem se manifestar ainda na primeira ou segunda décadas de vida.
Quem pratica esporte regularmente está protegido contra infarto jovem?
A atividade física reduz o risco cardiovascular, mas não elimina fatores como predisposição genética, dislipemias não diagnosticadas ou anomalias estruturais do coração. Atletas jovens que apresentam dor no peito, desmaios ou palpitações intensas durante o exercício devem passar por avaliação cardiológica, que inclui eletrocardiograma e ecocardiograma.
Estresse no trabalho pode causar infarto antes dos 30 anos?
O estresse crônico libera cortisol e adrenalina continuamente, inflamando os vasos sanguíneos e elevando a pressão arterial. Isoladamente, raramente é a única causa. Mas combinado com outros fatores, como tabagismo, privação de sono e sedentarismo, ele contribui de forma significativa. A privação crônica de sono, que acompanha rotinas de alta pressão, é um fator independente de risco cardiovascular.
Se meu pai infartou jovem, devo fazer algum exame?
Sim. Histórico familiar de infarto precoce (antes dos 45 anos em homens, antes dos 55 anos em mulheres) é um sinal de alerta para possível causa genética, especialmente hipercolesterolemia familiar. O cardiologista indicará exame de colesterol completo com frações e pode solicitar mapeamento genético dependendo do resultado. Parentes de primeiro grau de portadores têm 50% de chance de ter a mesma mutação.
Como saber se o infarto de um jovem foi causado por cocaína?
No pronto-socorro, o médico sempre pergunta sobre uso de substâncias ao atender um jovem com dor torácica. A informação é clínica e não implica julgamento, já que ela muda completamente a abordagem do tratamento. O espasmo coronário por cocaína responde de forma diferente ao cateterismo comparado ao infarto por placa de gordura.
Referências
- hospitalsaomatheus.com.br
- nav.dasa.com.br
- hcor.com.br
- apm.org.br
- nationalgeographicbrasil.com
- cardiocenterto.com.br
- drfernandofigueira.com.br
- temasemcardiologia.com.br
- casahunter.org.br
- ccr.med.br
- mendelics.com.br
- otempo.com.br
- ahfcolesterol.org

