O consumo de sachês de nicotina, produto proibido na maioria dos países, cresceu 50% em 2024 em relação ao ano anterior. Segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicado em maio, mais de 23 bilhões de unidades foram vendidas no ano passado, o que acende um alerta entre profissionais da saúde.

    Nesta quinta-feira (25), a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) publicou um manifesto pedindo a manutenção da proibição de dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs), como o vape e o sachê de nicotina. A entidade convocou as autoridades brasileiras, em especial os membros do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, a rejeitarem propostas de regulamentação que normalizem o consumo desses produtos.

    O sachê de nicotina é promovido pelo mercado ilegal como uma alternativa ao tabagismo, com a justificativa de que não envolve a queima de substâncias. No entanto, não é uma opção segura. O produto pode causar dependência química, além de problemas bucais e cardiovasculares.

    Os sachês são pequenos envelopes permeáveis com composição desconhecida, já que são ilegais e não há padronização na fabricação. Em geral, contêm nicotina, aromatizantes e adoçantes. Um relatório da ACT Promoção da Saúde aponta que um sachê pode conter até 18 vezes mais nicotina do que um cigarro convencional. Enquanto o tabaco comum libera cerca de 1 miligrama da substância, os sachês avaliados liberaram de 4 a 18 miligramas. Há registros de produtos com até 120 mg por unidade, o que aumenta o risco de dependência e efeitos adversos.

    Os sachês são colocados entre a gengiva e o lábio, liberando nicotina na mucosa oral, que absorve a substância até chegar à corrente sanguínea. A pneumologista Maria Enedina Scuarcialupi, coordenadora da Comissão Científica de Tabagismo da SBPT, lista os principais riscos: dependência à nicotina, gengivite, náuseas, vômitos, cefaleia, tontura, soluços, problemas na garganta, palpitações e irritabilidade. O uso crônico pode levar à hipertensão arterial.

    Um artigo da Escola de Medicina da Universidade Yale, nos Estados Unidos, alerta que a droga pode ser especialmente problemática para crianças e adolescentes. Diferente de cigarros e dispositivos de vaporização, que produzem fumaça e vapor, os sachês são mais discretos e difíceis de serem notados pelos pais, podendo induzir à dependência desde cedo.

    Apesar de não conterem tabaco, que é carcinogênico, os sachês podem causar dependência e servir como porta de entrada para o consumo de cigarros convencionais e eletrônicos, que liberam dezenas de substâncias cancerígenas.

    Os adesivos de nicotina, usados na terapia de reposição de nicotina (TRN) para quem está parando de fumar, não são equivalentes aos sachês. Segundo a pneumologista, o adesivo é um medicamento com dose padronizada, liberação lenta na pele e uso por tempo limitado, definido por um médico. Já os sachês são produzidos sem rigor, com níveis variados de nicotina e absorção rápida e intensa pela mucosa da gengiva e do lábio, podendo atingir concentrações tóxicas ou serem ingeridos acidentalmente por crianças.

    No Brasil, a importação, comercialização e propaganda de sachês de nicotina e outros DEFs são proibidas desde 2009, pela Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 46, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A Anvisa mantém uma consulta dirigida aberta até segunda-feira (29) para discutir a regulamentação atual e elaborar novas estratégias para garantir que o Brasil cumpra os compromissos da Convenção-Quadro para Controle do Uso do Tabaco (CQCT), que visa proteger as futuras gerações do tabagismo.

    Fátima Watanabe

    Formada em biblioteconomia pela UFMG, Fátima Watanabe começou na sua área escrevendo artigos sobre as obras de Dante Alighieri e sua importância dentro da literatura. Hoje, Fátima passa seus dias como pesquisadora de sua área, integrando o uso de palavras-chave na pesquisa didática e ainda escreve editoriais e artigos no Revista Top Saúde.

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