O excesso de treino pode ter consequências negativas para a saúde do atleta, mesmo que ele aparente estar em boa forma. A condição conhecida como RED-S, sigla em inglês para deficiência energética relativa no esporte, ocorre quando o corpo gasta mais energia do que recebe por meio da alimentação.
Essa situação é comparada a uma conta bancária no vermelho por um longo período. Para continuar funcionando, o organismo passa a economizar energia em algumas funções, e essa economia tem um preço. O problema pode surgir quando o atleta restringe a alimentação para perder peso, busca um físico mais magro ou aumenta o volume de treinos sem ajustar a ingestão de calorias.
Quando falta energia, o corpo prioriza funções essenciais, como manter o coração e o cérebro funcionando, e reduz o investimento em outras áreas. Entre as primeiras afetadas estão a produção de hormônios e a saúde dos ossos. A produção de hormônios sexuais diminui, o metabolismo ósseo se altera e a capacidade de formar e reparar o tecido ósseo fica comprometida. Com o tempo, os ossos se tornam mais frágeis.
O perigo é que o desempenho pode parecer preservado e o físico continua impressionante, enquanto o organismo já está em desequilíbrio. Uma das consequências mais frequentes do RED-S são as fraturas por estresse, pequenas fissuras causadas pela repetição dos impactos do treinamento, sem que tenha ocorrido uma queda ou outro trauma.
Dores persistentes nas pernas, nos pés, na pelve ou na região lombar, recuperação lenta entre os treinos e queda inesperada de desempenho são sinais que merecem atenção. Nas mulheres, alterações menstruais ou a interrupção da menstruação costumam ser pistas importantes. Nos homens, o diagnóstico pode demorar mais, já que as alterações hormonais são menos evidentes.
Além dos ossos, o RED-S pode afetar a imunidade, aumentar o risco de lesões musculares, prejudicar a concentração, alterar o humor e comprometer a performance esportiva. A adolescência e o início da vida adulta são períodos em que o organismo constrói a maior parte da massa óssea que servirá de proteção durante o envelhecimento. Se o RED-S acontece nessa fase, essa reserva pode nunca atingir seu potencial máximo, aumentando o risco de osteoporose e fraturas décadas depois.
O tratamento envolve corrigir a disponibilidade de energia por meio da alimentação, ajustar a carga de treinos quando necessário e acompanhar o atleta de forma multidisciplinar, com médicos, nutricionistas, fisioterapeutas e preparadores físicos. Também é importante abandonar a ideia de que quanto mais magro, melhor. Em muitos casos, um corpo extremamente definido pode indicar que está faltando energia para manter o organismo saudável.
Dores recorrentes, fraturas por estresse ou queda inexplicada de rendimento nunca devem ser encaradas como “parte do treinamento”. Muitas vezes, são o pedido de ajuda de um organismo que já está trabalhando no limite. No esporte de alto rendimento, saúde e desempenho precisam caminhar juntos, pois quando o corpo entra em dívida energética, os ossos costumam ser os primeiros a pagar essa conta.

