O estudo sobre os efeitos da polilaminina em humanos foi finalmente publicado em uma revista científica, após ter sido rejeitado por pelo menos três periódicos. O artigo, disponibilizado na terça-feira, 4, na revista Spinal Cord, do grupo Nature, passou pela primeira vez por uma revisão formal de outros cientistas. Antes, o material estava disponível apenas como pré-print, uma versão preliminar sem avaliação de pares, o que era uma das principais críticas de especialistas.
Na versão final, os pesquisadores corrigiram alguns problemas metodológicos e adotaram um tom mais cauteloso sobre os resultados. No entanto, cientistas ouvidos pela reportagem afirmam que o trabalho ainda apresenta fragilidades importantes. Entre as mudanças, as conclusões sobre a eficácia da substância se tornaram mais modestas. No pré-print, os autores afirmavam que os dados sugeriam “eficácia da polilaminina no tratamento da lesão medular aguda”. Agora, a equipe diz que o foco do estudo é apenas avaliar se a aplicação é viável e segura, reconhecendo que o desenho do estudo não permite conclusões sobre eficácia.
Outro ponto que permanece em aberto é a incerteza sobre a melhora espontânea dos pacientes, o chamado “choque medular”. O novo texto informa que foram realizados testes de reflexos para descartar o quadro, mas especialistas apontam que parte dos pacientes passou por cirurgia de descompressão, o que pode ter influenciado a recuperação. A dúvida sobre se a melhora veio da droga, da cirurgia ou da evolução natural do corpo continua.
O estudo incluiu oito pacientes com lesão medular completa, dos quais três morreram durante a pesquisa. Na versão publicada, os autores mantiveram a conclusão de que 75% dos participantes apresentaram recuperação motora, mas passaram a apresentar o dado de forma mais contida. No pré-print, essa taxa era usada como principal argumento para a eficácia da substância. Um erro de digitação que mostrava a evolução de um paciente falecido cerca de 400 dias após o procedimento também foi corrigido.
Registro retrospectivo e críticas
O artigo também passou a justificar o registro retrospectivo do estudo, algo que não havia na versão preliminar. Apesar dos ajustes, os especialistas ressaltam que as fragilidades metodológicas continuam presentes. “Foram três mortes de oito pacientes, com dados que não transmitem a segurança necessária”, avalia o farmacêutico Flávio Emery, da USP. A fisioterapeuta Francielle Romanini, especialista em lesão medular, acrescenta que os autores ainda dão destaque desproporcional à evolução neurológica dos pacientes, o que cria uma impressão de eficácia que o próprio desenho do estudo não permite confirmar.

