A percepção da dor não é influenciada apenas por fatores físicos. Valores sociais, classe e história pessoal moldam a forma como cada pessoa sente e expressa o sofrimento, de acordo com a cinesiologista Mariana Schamas.
A relação entre cultura e dor é o tema central da análise. O ambiente em que a pessoa vive, o que pensa e sente, e a forma como leva a vida influenciam diretamente a relação com a dor. Frases como “engole esse choro” e “aguenta firme” ensinam limites durante a infância e condicionam o comportamento diante do desconforto.
O antropólogo Michel Alcoforado define cultura como um conjunto de sentidos construídos coletivamente, que dá lugar no mundo e permite a convivência entre as pessoas. Essa definição ajuda a entender por que grupos diferentes lidam com a dor de maneiras distintas.
Diferenças entre classes sociais
Trabalhadores rurais, por exemplo, costumam ter uma relação de resistência com o corpo. A dor é ignorada e suportada, e quem aguenta mais é visto como valente. A busca por ajuda acontece apenas quando a doença paralisa o trabalho.
Já pessoas de classes médias e altas tendem a ter maior vigilância sobre o corpo e seguem mais os conselhos médicos. Os sintomas são vistos como alertas para cuidar e prevenir. A população mais pobre, muitas vezes, foi ensinada a ignorar os sinais e seguir em frente.
Essa diferença também aparece no atendimento de saúde. Profissionais tendem a minimizar o sofrimento de pessoas pobres, com a ideia de que “o pobre aguenta mais dor”. Pessoas de classes altas recebem mais atenção e incentivo ao cuidado.
Dimensão social do sofrimento
A sociedade, as relações humanas e as políticas públicas influenciam a percepção da dor. Duas pessoas com a mesma idade, gênero e intensidade de dor, mas em condições sociais diferentes, lidam com o problema de formas completamente distintas.
A história de vida e os aspectos culturais moldam tanto o nível de sofrimento quanto a forma de tratamento. Quem sofre com dor muitas vezes é visto como frágil ou sem força de vontade, mas essa visão ignora a complexidade do problema.
A dor é subjetiva e individual. No caso da dor crônica, as causas são multifatoriais e exigem tratamento multimodal, com diferentes especialidades da saúde. Se as causas são biopsicossociais, cuidar da dor também é um ato social e cultural.

