Prazer e bem-estar não são a mesma coisa, embora muitas vezes sejam tratados como equivalentes no senso comum. Essa confusão pode levar a frustrações para quem busca uma vida mais equilibrada e saudável.

    O mercado atual tenta vender saúde e equilíbrio com soluções simplórias, dando ao bem-estar uma aparência de prazer. Isso ignora os ensinamentos de Freud. Na pressa por resultados, as pessoas acabam se enganando.

    Conquistar o bem-estar é um processo de longo prazo. Isso é pouco atraente para indivíduos apressados e ansiosos. Buscar o bem-estar apenas pelo prazer pode gerar mal-estar e frustração.

    O que Freud diz sobre o prazer

    Freud afirmou que o prazer é um princípio de funcionamento do psiquismo, muitas vezes inconsciente. Ele não obedece às necessidades adaptativas do organismo. É comum que pessoas sintam prazer com coisas que prejudicam o bem-estar, como comer ou beber em excesso.

    De modo geral, a lógica da vida cotidiana que sustenta o bem-estar é inversa à lógica que busca o prazer.

    Imediatismo do prazer versus conquista do bem-estar

    O prazer tem um apelo mais imediato. Ele pode ser alcançado com estímulos intensos e breves, de efeito passageiro. O consumo de açúcar, por exemplo, dá prazer rápido, mas pode ter consequências nocivas.

    O bem-estar, por sua vez, se conquista com o tempo. Exige constância e a capacidade de sustentar escolhas muitas vezes desprazerosas, como manter uma dieta ou rotina de exercícios. O bem-estar é uma conquista; o prazer, um mimo.

    Manter um bom relacionamento é uma prática de bem-estar, pois exige investimento afetivo de longo prazo. Já as relações líquidas, como descreveu o sociólogo Zygmunt Bauman, não exigem esse investimento. Encontros fugazes atendem apenas à lógica do prazer.

    Freud ensina que o prazer pode estar a serviço da pulsão de morte. Já o bem-estar pode representar a pulsão de vida. Quando excedem limites, os prazeres podem resultar em vícios e prejudicar a saúde física e mental.

    O bem-estar pode oferecer um desconforto inicial, como escolher uma alimentação saudável ou praticar exercícios. Mas costuma trazer benefícios, como maior autocuidado e integração psíquica. A disciplina do bem-estar fortalece a saúde, mesmo não sendo fácil.

    Prazer e bem-estar podem coexistir

    As lógicas do prazer e do bem-estar não são excludentes. Relacionamentos de bem-estar, por exemplo, têm muitos momentos de prazer e dependem deles para serem sustentáveis. Ambos são importantes para uma vida saudável.

    O que não se deve fazer é comprar a ilusão de que é possível alcançar o bem-estar apenas com escolhas prazerosas e fáceis. O bem-estar é um direito de todos, mas também uma conquista árdua, muitas vezes coletiva. Muita gente prefere abrir mão dele se houver um pouco de prazer em jogo.

    Para quem busca uma vida de bem-estar e encontra dificuldades, uma solução pode ser equilibrar o trabalho por ele com momentos de prazer, sem confundir uma coisa com a outra.

    Fátima Watanabe

    Formada em biblioteconomia pela UFMG, Fátima Watanabe começou na sua área escrevendo artigos sobre as obras de Dante Alighieri e sua importância dentro da literatura. Hoje, Fátima passa seus dias como pesquisadora de sua área, integrando o uso de palavras-chave na pesquisa didática e ainda escreve editoriais e artigos no Revista Top Saúde.

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