Vape entre jovens acende alerta sobre dependência de nicotina
Dados oficiais mostram que experimentação de cigarros eletrônicos por adolescentes cresceu enquanto o cigarro tradicional perdeu espaço no país
Enquanto o consumo de cigarro convencional segue em queda no Brasil, o uso de cigarros eletrônicos avança entre adolescentes, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE. O levantamento, mais recente edição de 2024, mostra que a experimentação do vape entre estudantes de 13 a 17 anos quase dobrou em relação a 2019, reacendendo o debate sobre dependência de nicotina no país.
No Brasil, a proporção de adolescentes que já experimentaram cigarro eletrônico saltou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024, de acordo com a PeNSE. Na região Nordeste, o índice chegou a 22,5%. Na Bahia, o percentual passou de 9,6% para 21,2% no mesmo período, e em Salvador foi de 14,6% para 17,7%, conforme dados citados pelo Acorda Cidade.
No sentido oposto, o cigarro tradicional perdeu espaço entre os jovens: a experimentação caiu de 22,6% para 18,5% no país, no mesmo intervalo. Entre adultos, o Vigitel também aponta redução histórica no tabagismo, de 15,7% em 2006 para 11,5% em 2024 nas capitais e no Distrito Federal. Já o Paraíba Total, citando outros inquéritos como o Lenad, aponta que o tabagismo geral voltou a subir, de 9,3% para 11,6%, após duas décadas de declínio, um dado que evidencia divergência entre as fontes consultadas quanto à tendência mais recente.
Por que o vape preocupa tanto quanto o cigarro
Para Alina Farias Franca, pneumologista da Clínica SiM, entrevistada pelo Acorda Cidade, o formato moderno do dispositivo eletrônico pode passar uma falsa impressão de segurança. Segundo ela, o ponto central não é a aparência do produto, mas o fato de ele fornecer nicotina, substância com alto potencial de causar dependência, especialmente quando o contato começa na adolescência.
A professora Maria Enedina Scuarcialupi, da Afya Paraíba, reforça em entrevista ao Paraíba Total que o cérebro do adolescente ainda em formação é mais vulnerável à dependência química. Ela cita a presença, nos vapes, de substâncias como nicotina, nitrosaminas, metais pesados, propilenoglicol e derivados de vitamina E, além de casos que já envolveram anfetaminas e componentes de THC em alguns produtos analisados.
A especialista destaca ainda que os sais de nicotina, comuns nesses dispositivos, têm potencial de dependência ainda maior. A inalação de vitamina E, segundo ela, pode causar inflamação e fibrose pulmonar, quadro associado à EVALI, lesão pulmonar que em casos graves pode ser fatal. "Não podemos tratar esses produtos como alternativas de menor risco", afirma Maria Enedina ao Paraíba Total.
Design colorido e sabores aumentam o apelo entre jovens
Segundo a pneumologista da Afya Paraíba, o formato dos dispositivos, muitas vezes parecido com canetas, batons ou frascos de perfume, combinado a cores vibrantes e sabores variados, contribui para reduzir a percepção de risco entre adolescentes. A ausência do cheiro característico do cigarro e da sensação de queimação na garganta também facilita a experimentação, segundo ela.
Do ponto de vista dos efeitos no organismo, o Paraíba Total lista uma série de riscos associados ao consumo de nicotina em qualquer formato: alterações nos vasos sanguíneos, aumento de pressão arterial e frequência cardíaca, maior risco de infarto e AVC, além de bronquite crônica, enfisema e DPOC. A reportagem também associa o tabagismo a cerca de 50 doenças, incluindo diferentes tipos de câncer.
Como identificar sinais de dependência e buscar ajuda
Segundo Alina Franca, não existe um momento exato em que o consumo se transforma em dependência: o processo costuma ser gradual. Entre os sinais de alerta citados pela pneumologista estão a necessidade frequente de usar o dispositivo, irritabilidade quando não é possível consumir, dificuldade de ficar sem nicotina e tentativas frustradas de interromper o uso.
A especialista recomenda que pais e responsáveis observem não apenas o cigarro tradicional, mas também dispositivos eletrônicos e mudanças de comportamento, com diálogo aberto e sem julgamento. Ela reforça que o acompanhamento com pneumologista pode ser preventivo, sem que seja necessário esperar o surgimento de sintomas respiratórios para procurar orientação médica.
Já Maria Enedina detalha que o tratamento da dependência de nicotina combina abordagem química e comportamental, já que o hábito também envolve gestos associados à rotina, como levar o dispositivo à boca. O SUS oferece tratamento gratuito para cessação do tabagismo, que pode incluir acompanhamento psicológico, atividade física e, quando indicado, medicamentos ou reposição de nicotina por adesivos, gomas e pastilhas. Para o vape, ainda não existe protocolo terapêutico específico consolidado, segundo a especialista, mas a experiência com o cigarro convencional tem servido de referência para orientar pacientes.
O que fazer diante do aumento do consumo entre adolescentes
Os dados apresentados pelas duas reportagens mostram um cenário de transição: o cigarro tradicional perde espaço, mas a nicotina segue presente na vida de adolescentes por meio de um produto com apelo visual mais atrativo. Não há, nas fontes consultadas, indicação de que algum desses dispositivos seja mais seguro do que o cigarro convencional; ao contrário, ambas as especialistas reforçam que não existe forma de consumo de nicotina livre de risco.
Para famílias e educadores, a orientação das especialistas é observar sinais de uso, mesmo em produtos que não lembram o cigarro tradicional, e procurar avaliação médica diante de qualquer indício de dependência, sem esperar o agravamento do quadro. Quem já fuma ou usa vape e deseja parar pode buscar atendimento gratuito pelo SUS, que oferece acompanhamento estruturado para cessação do tabagismo. As fontes não trazem, até o momento, um protocolo oficial específico voltado exclusivamente para dependência de cigarro eletrônico, o que reforça a importância de acompanhamento profissional individualizado enquanto esse conhecimento avança.
Fontes consultadas
Mais sobre isso: o caderno de bem estar da Revista Top Saúde e o que a revista publicou sobre alimentação.



